Cidade gaúcha recusa título de ‘terra dos gêmeos de Mengele’

Cidade gaúcha recusa título de ‘terra dos gêmeos de Mengele’

G1 visitou Cândido Godói, no interior do Rio Grande do Sul.
Município tinha uma taxa de nascimentos de gêmeos elevada.

Marília JusteDo G1, em Cândido Godói (RS)

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O arco na entrada da cidade traz a marca ‘Terra dos Gêmeos’ (Foto: Marília Juste/G1)

A fama de que o médico nazista Joseph Mengele teria causado um ‘boom’ de gêmeos no interior gaúcho causou revolta na pequena Cândido Godói, a mais de 500 km a noroeste de Porto Alegre e pouco menos de 7.000 habitantes.

O fato foi publicado em livro do argentino Jorge Camarasa e correu o mundo. Mas o fenômeno não é apenas anterior a Mengele como hoje é difícil de encontrar gêmeos na cidade.

Na verdade, quem espera entrar na intitulada “Terra dos Gêmeos” e se deparar com dezenas de crianças arianas brincando em duplas idênticas pode se preparar para a decepção. O município não parece muito diferente de outros da região, todas com economias agrícolas, vivendo do plantio da soja.

Cândido Godói ganhou as páginas dos jornais de todo o mundo em dois momentos. Primeiro, nos anos 1990, quando geneticistas de Porto Alegre comprovaram o que a população desconfiava há algum tempo: em uma pequena área do município, a taxa de nascimentos de gêmeos era (bem) acima da média do resto do país. Depois, nas últimas semanas, quando um livro do jornalista argentino Jorge Camarasa levantou a hipótese de que o fenômeno seria fruto de manipulações genéticas de Mengele, que teria passado na região durante os anos 1960, e morreu na cidade paulista de Bertioga, em 1979.

Na primeira vez que foi notícia, a população não se incomodou com a atenção. Daí, saíram o arco que hoje adorna a entrada com a inscrição “Terra dos Gêmeos” e a tradição da “Festa dos Gêmeos”, que, uma vez a cada dois anos, reúne centenas de grupos de irmãos de todo o interior gaúcho. Este último “surto de atenção”, no entanto, já não foi tão bem recebido.

Foto: Divulgação/Prefeitura de Cândido Godói

Na Festa dos Gêmeos, dezenas de irmãos participam (Foto: Divulgação/Prefeitura de Cândido Godói)

A hipótese de que Mengele teria feito experimentos genéticos na população de Cândido Godói não é novidade para ninguém que mora por ali. Ela foi divulgada na região pela primeira vez pelo médico e ex-prefeito da cidade, Anencir Flores, co-autor de um livro de 2007 sobre o assunto, que ele mesmo afirma ter “um pouco de ficção e um pouco de realidade”. Mas, quando o argentino Camarasa divulgou a tese fora do Brasil, em seu próprio livro, “Mengele: o Anjo da Morte na América do Sul”, a coisa mudou de figura.

“É uma total falta de respeito. Nós, gêmeos, jamais admitimos que somos resultado de uma manipulação genética de um criminoso nazista”, afirma o historiador Paulo Sauthier, organizador de um museu da imigração alemã em Cândido Godói, e ele próprio um dos gêmeos da cidade. “Nenhuma pessoa da nossa região jamais simpatizou com o nazismo. Nós éramos vitimados por perseguições pós-45 pelo fato de falarmos alemão. Isso é uma total falta de respeito”, critica Sauthier.

O atual prefeito, Valdi Goldschmidt, concorda. “É até um pouco pejorativa essa ligação, considerando que temos uma população que é 90% de origem alemã”, afirma.

Goldschmidt também explica que a cidade parece ter cada dia menos direito ao apelido que a fez famosa. “É um resgate do passado que fez o município ter essa denominação de ‘cidade dos gêmeos’”, explica. “Hoje em dia, se formos analisar o índice de nascimento de gêmeos, ele não foge mais da média mundial”, diz o prefeito, que também é médico da cidade. “Os últimos gêmeos que nasceram aqui, nasceram na minha mão”, diz Goldschmidt.

Sauthier, cujo irmão gêmeo vive hoje em Santo Cristo, concorda com a avaliação. “Hoje é muito difícil encontrar esses gêmeos fora das festas”, explica.

Linha São Pedro

Antes de entrar na polêmica, no entanto, cabe explicar o que exatamente acontece por ali.

O fenômeno de nascimentos de gêmeos não está em Cândido Godói como um todo, mas apenas em Linha São Pedro, uma pequena comunidade do município, distante 4 km do centro da cidade. Em uma área de pouco menos de 6 km quadrados, segundo o prefeito Goldschmidt, vivem cerca de 80 famílias. Há gêmeos em pelo menos 38 delas, embora a maioria já tenha deixado a pequena cidade. No município todo, de pouco menos de 7 mil habitantes, são 68 casais de gêmeos.

O número aparentemente excessivo de gêmeos em Linha São Pedro, no entanto, passou praticamente despercebido ao longo dos anos. O que não é nada estranho, uma vez que falamos de famílias de pequenos agricultores, que moram muitas vezes bem longe dos vizinhos mais próximos. Só no início da década de 1990, o fenômeno foi notado e o mistério chegou aos ouvidos dos cientistas. Mais especificamente, à equipe da geneticista Úrsula Matte, no Hospital das Clínicas do Porto Alegre.

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A geneticista Úrsula Matte estudou os gêmeos de Cândido Godói (Foto: Marília Juste/G1)

Matte fez um extensivo levantamento sobre a quantidade de gêmeos na linha São Pedro, sobre a taxa de nascimentos e sobre a árvore genealógica das famílias da região. Os resultados surpreenderam a cientista.

“Peguei um período de tempo, de 1990 a 1994, vi quantos nascimentos tinham ocorrido e quantos eram de gêmeos. Deu uma incidência bem alta, de 10%”, explica a geneticista. O índice de nascimentos de gêmeos no Brasil não passa de 1% do total.

O mais intrigante, no entanto, não foi a taxa de nascimentos de gêmeos, mas a variedade: 60% deles eram gêmeos não-idênticos (ou “dizigóticos” no termo científico) e 40% eram idênticos (ou “monozigóticos”). “Para ter gêmeos dizigóticos, a gente espera que a mãe tenha algum fator genético que faça com que ela ovule duas vezes. Para ter monozigóticos, não se espera que a mãe tenha nada. É um fator genético que se expressa no embrião. É difícil você achar uma explicação para os dois ao mesmo tempo”, afirma a cientista.

Entenda como funciona a gestação de irmãos gêmeos

Se um dos tipos de gêmeos fosse maioria, seria possível a ciência procurar um fator genético comum às famílias da Linha São Pedro. Como a diferença não foi tão grande assim, fica o mistério. Principalmente porque a maioria das famílias com gêmeos tem dos dois tipos.

A equipe de Úrsula Matte sugere então que a causa não tenha nada a ver com tendência a ter gêmeos, mas, sim, com uma facilidade das famílias locais de terem gestações de sucesso. “O que a gente propõe alternativamente é que exista algum fator que ajude a levar a gestação a termo. Por que ter dois filhos de uma mesma vez é mais difícil que ter um só”, explica Matte. Ou seja, o risco de aborto natural em Linha São Pedro é que seria menor que o normal.

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As irmãs gêmeas Franciele e Francine Seibt, de 17 anos, ao lado da avó, Maria Normélia Naummann, de 71 anos, que também é gêmea (Foto: Marília Juste/G1)

Seja o que for, parece ser algo intimamente ligado às famílias da região e a genética parece estar envolvida, acredita a cientista. Úrsula Matte mostra a árvore genealógica de uma família da região. Aponta uma mulher. “Ela não era gêmea, mas tinha irmãos que eram. Ela teve dois pares de gêmeos. Um irmão dela também teve gêmeos. Dificilmente não vai ser um fator genético”, diz a cientista.

Hipóteses

A falta de uma resposta definitiva da ciência abriu espaço para formulação de diferentes hipóteses. Estimulada pelo mistério, a população passou a vender garrafinhas de água da região com a etiqueta “Água da Fertilidade”.

Na mesma época, na Argentina, o jornalista Jorge Camarasa levantava as rotas do médico nazista Joseph Mengele na América do Sul. “Vi na imprensa uma reportagem sobre o povoado publicado em uma revista argentina. Me chamou a atenção porque eu sabia que Mengele tinha andado por essa região”, afirmou Camarasa ao G1.

O fascínio de Mengele por irmãos gêmeos é velho conhecido da história. Os gêmeos não-arianos da Alemanha nazista foram vítimas de verdadeiras torturas em nome da ciência de Mengele. Logo, em seu livro “Odessa ao Sul”, de 1995, Camarasa levantou a possibilidade de que a existência de uma grande quantidade de gêmeos em Cândido Godói e a passagem do “Anjo da Morte” pela vizinhança não teria sido uma simples coincidência. E é aí que a história se enrola.

Em Cândido Godói, o ex-prefeito Anencir Flores diz ter lido o livro de Camarasa e resolvido investigar o caso. Dessa investigação saiu o seu próprio livro, “Meus dois corpos”, de 2007, onde ele retrata supostos encontros de Mengele com moradores da região de Godói em uma mistura de “ficção e realidade”, segundo o próprio autor.

Durante a preparação do livro de Flores, em 2006, Camarasa visitou Cândido Godói, onde afirmou ter conversado com moradores que teriam conhecido Mengele.

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O ex-prefeito Anencir Flores (esq.) e o atual, Valdi Goldschmidt, divergem sobre o fenômeno dos gêmeos de Godói (Foto: Marília Juste/G1)

A reportagem do G1 tentou entrar em contato com as fontes dos livros, mas a maioria delas já é falecida ou é citada na obra com nomes fictícios para proteger sua identidade. Outros moradores da cidade ouvidos afirmaram que não sabem de ninguém que tenha falado com o nazista.

O historiador Paulo Sauthier, que estudou as famílias da região, duvida da passagem do alemão. “Não tem ninguém que fale abertamente: ‘eu falei com o Mengele’”, diz Sauthier.

O atual prefeito também. “Dentre as pessoas de mais idade, dentre as pessoas que tiveram gêmeos, nenhuma, nesses 22 anos que estou aqui, me disse que teve um sujeito que disse que era para tomar isso ou fazer aquilo. Posso te dizer de boca cheia. Acho que em algum momento nesses 22 anos de contato com a população, como a cidade é pequena, eu teria ouvido isso se tivesse acontecido”, diz Goldschmidt.

Tanto Sauthier quanto Goldschmidt afirmam que não foram procurados por Camarasa em sua passagem por Cândido Godói. “Não falei, nem conheço ninguém que tenha falado nem com esse alemão nem com esse argentino”, diz o prefeito.

De volta a Buenos Aires, Camarasa termina seu novo livro e cita os encontros de Mengele com as senhoras de Cândido Godói que o ex-prefeito Anencir Flores descreve em “Meus dois corpos”. Como em uma história de mistério, as obras tratam de senhoras austeras recebendo visitas de um homem estranho em um carro preto, de chás misteriosos, de contrabando de sangue e até de um suposto laboratório móvel onde Mengele e alguns companheiros poderiam ter feito exames na região.

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O historiador Paulo Sauthier no museu que montou em Cândido Godói (Foto: Marília Juste/G1)

“Me parece excessiva a coincidência. Mengele, que dedicou sua vida à tarefa de criar gêmeos arianos, aparecer justamente em um lugar onde eles passaram a nascer massivamente a partir do momento em que ele chegou no local”, afirma Camarasa. “À falta de outra explicação, a hipótese de sua ingerência no fenômeno me segue parecendo válida e creio que é necessário se aprofundar nela”, diz o jornalista argentino.

Questionamentos

A história das experiências genéticas de Mengele em Cândido Godói foi notícia em todo o mundo. Mas a versão tem alguns “furos de roteiro”. O principal, para a geneticista Úrsula Matte, é o tempo. “Se a gente for olhar as idades, temos gêmeos muito antes de ele ter ido e temos gêmeos muito depois de ele ter ido. Eu estudei crianças que nasceram em 1990, 1994. O que ele poderia ter feito em 1960 que fez mulheres em 1994 terem filhos gêmeos?”, questiona a geneticista.

E, apesar de Camarasa afirmar que o número de gêmeos aumentou após a suposta passagem de Mengele, há casos de nascimentos múltiplos na Linha São Pedro em 1930, 1940 e 1950. O que ocorre é que os registros, de gêmeos ou de qualquer nascimento na área, só começaram a ser feitos a partir de 1963 — que é quando a região se torna, oficialmente, um município. Até então, as crianças nascidas na Linha São Pedro eram registradas ou em Santa Rosa ou em São Luís.

A ciência também desbanca a possibilidade, diz Úrsula Matte. Em 1960, nem a tecnologia mais avançada disponível era capaz de fazer inseminação artificial em humanos. O primeiro bebê de proveta só nasceu em 1979. E até hoje, com todos os avanços da medicina moderna, os médicos não sabem como fazer uma mulher ter gêmeos idênticos artificialmente. “Se eu quero ter filhos gêmeos, o que eu faço? Bom, se eu quero filhos dizigóticos, posso tomar um remédio que estimule a ovulação. Mas se eu quero ter filhos monozigóticos, o que eu faço? Não sei”, afirma Mattes.

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As irmãs gêmeas Tatiane e Fabiane Grimm, de 22 anos. Tatiane ainda mora em Cândido Godói, mas Fabiane mudou para Santa Maria (Foto: Marília Juste/G1)

Pode-se, é claro, presumir, como Anencir Flores presume, que Mengele teria uma tecnologia mais avançada. Mas a geneticista acha altamente improvável. “Quando ele estava na Alemanha, ele estava no topo da carreira. Ele podia fazer o que quisesse. Se naquela época ele não foi capaz de mostrar nenhum grande resultado, nenhuma grande descoberta, não vai ser depois que ele fugiu, que ele foi para a Argentina, que ele está no meio do nada, que ele ia conseguir”, afirma a geneticista.

E mais, para os especialistas, é até uma ofensa considerar Joseph Mengele um cientista de fato. “É dar uma legitimidade para a pesquisa que ele fazia, que ela não tem. Uma pessoa que injeta tinta no olho de alguém para saber como é que funciona a cor do olho não entende nada de genética. Essa pessoa não é capaz de criar isso. Ele não tem essa credibilidade científica”, critica Mattes.

A história esbarra ainda em um problema “cultural”. “Eu acho muito improvável que senhoras alemãs tradicionais e conservadoras lá nos anos 1960 fossem confiar em um homem estranho, vindo de fora, querendo fazer exames nelas para engravidar”, afirma a Vanuza Breche, da secretaria da cultura de Cândido Godói.

O próprio Anencir Flores é cauteloso e não bate o martelo sobre a associação. “Que ele estudou o fenômeno, eu não tenho dúvida nenhuma. Agora se ele fez experimentos? Não dá para dizer isso”, afirma.

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